Remédios Varo (tô perdida)

Nos últimos tempos deu uma bagunça por aqui. Não do tipo que bloqueia, mas do tipo que você sai fazendo um monte de coisa sem parar, mas também sem conseguir chegar aonde quer. Não sei se todo mundo passa por isso, mas as vezes eu sinto que estou me deixando levar pelo que eu “conseguiria fazer” e acabo ficando confusa sobre o que quero fazer.

Tem tanto trabalho maravilhoso por aí e tantos caminhos que parecem tão legais de seguir que, sinceramente, cansa. essa sensação de não saber onde eu quero levar o trabalho está me dando uma ansiedade braba.

Resolvi que o jeito era voltar a fita um pouco e olhar o trabalho das pessoas que fizeram eu querer desenhar pra começo de conversa.

Comecei pela Remédios Varo.

Icono - Remédios Varo, 1945

Icono - Remédios Varo, 1945

Conheci o o trabalho dela no Museu de Arte Moderna de Buenos Aires (MALBA) em 2007. Tinha só uma peça dela lá, chamada Icono. É um oratório que dá vontade de morar dentro. Nenhuma foto faz juz. As luas são de madre pérola e todo o oratório por fora é talhado.

Creación de las Aves - Remédios Varo, 1957

Creación de las Aves - Remédios Varo, 1957

Na época eu estava começando a faculdade de Belas Artes e era especialmente obcecada por objetos mágicos.

Eu escolhi fazer uma interpretação desse segundo.

na verdade eu queria mesmo é ver se conseguia roubar um pouco dessa capacidade dela de fazer uma imagem super cheia narrativa e ao mesmo tempo nada óbvia.

olhei o quadro uns 10 minutos depois fechei e não olhei mais.

ficou assim:

remedios_final_corrigido_2.jpg

Primeiro que foi um exercício bem gostoso. recomendo.

segundo que me ajudou mesmo a pensar melhor sobre o que eu to procurando. Copiar de alguém parece que deixa mais espaço livre pra pensar em outras coisas; e manter minha cabeça focada no universo de uma artista que eu amo foi tipo uma mega-master-meditação.

fiz o desenho usando o ipad e um programa chamado procreate

blusa.jpg

Eu tenho muito fascínio por aquelas ilustrações cheias de textura e linhas tortinhas que você olha e de cara pensa na pessoa fazendo. Tomei pra mim que esse exercício seria sobre tentar isso. Deixar as cores sem misturar totalmente, deixar uns detalhes à lápis… e tentar não fazer uma zona.

Foi bem desafiador gerenciar tantos elementos. Mil objetos, cenário, transparência, textura, luz, composição.

Mas esse era o ponto, eu acho.

Minha vitória favorita é a textura dessa blusa e o detalhe das peninhas.

E o maior desconforto é que toda vez que eu olho pro desenho me bate a sensação que tá faltando ainda um pouco de coesão.

IMG_1935.JPG

Em termos de método, no rascunho eu achei a composição mais equilibrada que no fim e fiquei pensando se seria fundamental rascunhar também com blocos de cor, pra ter uma ideia do peso das coisas.

sabe o que eu queria? conseguir rascunhar com cor e luz ao mesmo tempo, que nem eu vi a Beatrice Blue fazer nos stories uma vez.

oi :)

Durante uns bons anos eu quis ser artista plástica, do tipo chique, que faz exposição em galeria contemporânea.

Torre.jpg

O problema é que eu odiava falar do meu trabalho. Eu odiava conviver em ambientes que tratavam a Arte como a coisa mais importante do mundo. E eu odiava a pressão de ter que justificar absolutamente tudo que eu escolhia fazer.

casas brancas.jpg

Depois de 5 anos decidi que não gostava de trabalhar com arte. Que era uma rotina e uma prática que me deixavam infeliz na maior parte do tempo e me davam muito pouco retorno de energia e felicidade.

Toda a parte de entender os critérios e a forma de pensar estética eu gostava, mas na hora de trabalhar, jesus, era só chororô, ansiedade e desespero.

Então eu larguei essa vida. Fui fazer ciências sociais, trabalhar no meu marxismo, dar aula de sociologia. E fiquei desenhando só escondido.

Casa amarela.jpg

Mas aí a idéia da ilustração foi crescendo em mim e pareceu uma forma bem mais amigável de voltar a trabalhar com criação visual.

Acontece que a gente acaba que absorve as coisas, né, mesmo que não queira. E eu fiquei com um montão de tique das faculdades de artes. As vezes eles são só uma bosta e chegam cagando com a minha possibilidade de me divertir enquanto trabalho. Mas tenho que admitir que outras vezes eles são ótimos.

Ainda não superei a dificuldade de conversar com outras pessoas sobre meu trabalho. Mas estou finalmente chegando à conclusão de que não adianta eu fingir que não penso sobre ele.

Então esse espaço é pra isso. Pra eu pensar e registrar e, se eu der sorte e alguém vier ler: pra eu conseguir achar um jeito de socializar um pouco esse lado da vida.

DSC_0487.JPG